A palmeira carnaúba é uma das maiores fontes de renda para a população de alguns estados do Nordeste, em especial do Ceará. É uma planta totalmente adaptada aos biomas Cerrado e Caatinga, por isso se mantém até hoje como um dos símbolos da região e de ser chamada de “árvore da vida”, pois dela tudo se aproveita.
Por estar bastante presente nos estados nordestinos, a carnaúba é geradora de renda em diversos setores, da indústria ao artesanato local. Dentro do imaginário local, a carnaúba tem sua representação também em lendas, folclore e na literatura brasileira.
Para além de uma planta, a carnaúba é um elemento simbólico sócio-cultural que representa e dá voz à pessoas de diferentes gerações.
Conhecemos a Associação Comunitária das Mulheres Artesãs de Itaiçaba através de nossas pesquisas sobre novas comunidades e grupos de artesãos que trabalhassem com palha de carnaúba em 2020. Hoje, a associação, que se dedica à valorização e comercialização das peças produzidas pelas mulheres da comunidade, já conta com mais de 20 artesãs e envia suas peças para todo o Brasil.
No início, o grupo produzia apenas utilitários de pouco valor econômico agregado, mas hoje a realidade é diferente graças à expansão do trabalho de trançado de carnaúba. Com a valorização do artesanato, novos produtos foram sendo incluídos no portfolio das artesãs, modelos estes com maior valor agregado e capilaridade dentro do mercado.

Em Cascavel, no litoral do Ceará, a família Muniz dá continuidade ao legado mestre Francisco Muniz, o idealizador da técnica inovadora de aplicação de textura com a renda de bilro nas peças de barro. Ao vivo, a cerâmica rendada é ainda mais incrível, porque além do acabamento ser impecável, os detalhes minuciosos são impressionantes pela delicadeza e firmeza.
Com as peças produzidas através dessa técnica única, é possível fazer uma bela composição de cerâmicas é usar e abusar das alturas, modelos e volumes das peças para trazer movimento e dinamismo no design final.

Nossa história com a Marlene começou pela internet, em pesquisas infinitas por artesãs e artesãos pelo Brasil. Deste contato, nasceu uma de nossas mais incríveis parcerias, com criação, desenvolvimento de produtos e design autoral em palha de coqueiro.
Com a valorização do seu trabalho em palha de coqueiro, hoje, toda a família dedica-se à produção de mandalas, luminárias e remos de maior valor agregado no mercado de decoração.
Ressignificar o uso de utilitários em itens de decoração foi uma das formas que encontramos de mostrar aos brasileiros que há, dentro do Brasil, as decorações que buscamos. A Marlene, por exemplo, é um desses nossos casos, em que, ao unirmos ideias criativas de decoração com técnicas de trançado, conseguimos valorizar simbolicamente e economicamente suas peças no mercado.

Na chamada Costa do Sauípe, no litoral norte da Bahia, as peças da Copartt são trançadas com técnicas centenárias de indígenas da etnia tupinambá por cerca de 300 artesãs reunidas em 8 associações locais. Essas artesãs, além de obterem sua renda através do artesanato em piaçava, também são responsáveis pela perpetuação dessa tradição secular do trançado. Elas cresceram fazendo o trançado com as técnicas que aprenderam com mães, avós ou vizinhas.
A piaçava é retirada das palmeiras da região, em um processo cuidadoso que respeita a vegetação e preserva o replantio. Dessa forma, a cada 3 meses, novas folhas nascem e estão prontas para utilização. Dos povos originários, as artesãs herdaram o ritual de colher a palha de piaçava, tratar, tingir a fibra e criar artefatos cotidianos versáteis.

Hoje, o artesanato em palha é apreciado nacionalmente pela sua beleza, versatilidade e durabilidade, além de ser reconhecido pelas técnicas de trançado que são passadas por gerações e ainda movimentam o estilo de vida das comunidades locais.
Os trançados em fibras naturais são considerados patrimônios culturais do Brasil, pois se perpetuam até hoje pelas gerações e pelos moradores de cada região e comunidade. As técnicas são ensinadas de pessoa a pessoa, de mão a mão, de boca a boca e, nessa comunicação entre gerações é que se resgata a ancestralidade do trançado e das pessoas.
A 150km de Salvador, Bahia, no município Esplanada, a associação Trançado das Marias foi criada em 2017 por 10 mulheres artesãs que se organizaram para profissionalizar seus trabalhos artesanais. Desde então, a produção mudou a realidade das mulheres associadas, que através da renda gerada tiveram maior autonomia financeira e de suas próprias vidas.
O trabalho artesanal feito nas peças é a junção de duas tradições indígenas: a técnica de trançado do cipó e a técnica de trançado da piaçava. Através dessa dupla herança local, as artesãs roduzem cestos, luminárias, e estão sempre inovando em peças que já foram destaque em revistas de decoração de relevância nacional.

As artesãs de Feliz Deserto, pequeno município que fica no Litoral Sul de Alagoas, produzem há 20 anos acessórios com a palha de taboa, uma planta aquática encontrada em áreas de várzeas, brejos e manguezais. Mas só agora as peças produzidas por elas ganharam espaço no mercado de moda e também no de decoração.
O manejo da taboa é sustentável, pois após o corte o capim brota e cresce com rapidez. Depois de cortarem o capim, as artesãs o secam, dividem em partes menores, procedimento que se chama ripagem, para então poderem trança-lo. Por último, as peças são montadas e costuradas.
Pudemos ver de perto todo esse legado de liderança feminina na associação e o impacto que essas ações tiveram e têm ao longo das gerações. Além de todo o desenvolvimento de produtos e do olhar empreendedor sobre a herança do trançado e da matéria prima.
A marca do fogo que queima e enrijece o barro, as formas construídas pelas mãos e toda a representatividade de Pernambuco e Bahia nessas peças encantadoras que trazemos na curadoria do Retrobel. A comercialização do artesanato através dessas parcerias implica uma profunda mudança no modo como os artesãos se inserem nesse processo e, atualmente, representa uma alternativa econômica viável e sustentável para a preservação desses saberes e também das matérias primas utilizadas.


